A educação ambiental frente ao esfacelamento da cidadania no governo Lula (2002-2006). (*)


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A educação ambiental frente ao esfacelamento da cidadania no governo Lula (2002-2006). (*)

Marcos Reigota

Universidade de Sorocaba


Não há saída, só ruas, esquinas e avenidas

(Itamar Assumpção)


Contexto.
A educação ambiental brasileira é conhecida pelo seu engajamento político na construção de uma sociedade justa, sustentável e democrática. Esse argumento pode ser verificado numa extensa bibliografia, da qual destaco apenas alguns dos livros e não incluindo por absoluta falta de espaço, artigos, teses e dissertações de inúmeros colegas, que lhe deram identidade política, pedagógica e visibilidade cientifica internacional. ( Dias, 2006, Philippi Jr.;Pelicioni,2005, Tozoni- Reis,2004, Ziaka et alli, 2003, Magnólio, 2003, Barcelos; Noal, 2002, Pedrini, 2002, Carvalho, 2001, Santos;Sato, 2001, Castro et alli,2000, Guimarães, 2000, Noal et alli, 2000, Tamar, 2000, Cascino, 1999, Curie, 1998, Cascino et alli, 1997, Pádua; Tabanez, 1997, Rodrigues, 1997, Brueger, 1994, Reigota, 1994).

Nela a perspectiva da cidadania tem importância fundamental, no entanto desde o início do governo Lula, uma série de acontecimentos, decisões políticas, eventos, seminários e documentos foram no sentido contrário ao que tem sido arduamente construído desde o final dos anos 1970.

...............
(*)A primeira versão desse texto foi apresentada no Grupo “Cotidiano e Práticas Sociais”no XI Simpósio Brasileiro de Pesquisa e Intercâmbio Científico da Associação Nacional de Pós-graduação em Psicologia (Anpepp), realizado de 15 a 19 de maio de 2006 em Florianópolis- SC. É livre a reprodução e difusão (copyleft) exclusivamente para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída.

Podemos situar a crise da identidade política da educação ambiental brasileira no momento em que a safra de soja transgênica, produzida clandestinamente no Rio Grande do Sul foi liberada para exportação e comercialização. Diante desse fato foi observado o silêncio de grande parte dos mais conhecidos educadores/as ambientais muitos deles e delas próximos do círculo do poder ou ocupando cargos políticos nos Ministérios da Educação e do Meio Ambiente. Esses/as colegas se não apoiaram a medida governamental também não se manifestaram publicamente a respeito ou abandonaram seus cargos.

Quando era ministro da Casa Civil, José Dirceu divulgava em altos brados que a usina nuclear Angra 3 seria concluída. Novamente o silêncio se fez entre nós.

A transposição do Rio São Francisco, obra considerada estratégica pelo atual governo, foi criticada por biólogos, geógrafos, geólogos e antropólogos, mas o silêncio que se instalava entre os/as educadores ambientais foi rompido quando o frei Dom Luiz Flavio Cappio iniciou greve de fome. Apesar do intenso debate, inclusive nos meios de comunicação de massa, a ministra do Meio Ambiente, afirmou em diferentes ocasiões que do ponto de vista técnico e ambiental a obra não apresentava nenhum risco.

Foi constrangedor observar o empenho de muitos históricos e conhecidos militantes ambientalistas e aliados estratégicos do Ministério do Meio Ambiente pela aprovação da lei numero 4.776/2005 que regulamenta a exploração da madeira na Amazônia. Grupos como Greenpeace, WWF e o GTA- Grupo de Trabalho da Amazônia ( que congrega inúmeras ONGs atuando na região) foram favoráveis à lei e fizeram intensa campanha pela sua aprovação.

Nos meios ambientalistas, e dos/das educadores ambientais, se ouviu várias vezes que o Ministério do Meio Ambiente estava sendo muito eficiente, apoiando os projetos das ONGs e que por isso, não podiam fazer criticas ao governo, nem à ministra, ou ainda que as criticas “favoreciam a direita”. A palavra cooptação começou a fazer parte do vocabulário e se tornou constante nas conversas cotidianas entre os que estavam em desacordo com essa política. Os meios de comunicação deram ênfase a um suposto consenso entre governo, madeireiros e ambientalistas em torno da referida lei, mas as vozes dissidentes pouco foram ouvidas. O semanário Carta Capital de 22 de fevereiro de 2006 publicou como matéria de capa uma reportagem com a questão: “ A Amazônia está salva?” e ofereceu a resposta: “Pela primeira vez na história, há consenso entre ambientalistas, seringueiros e madeireiros em torno de um novo modelo de exploração da floresta. Resta ver se o governo fará cumprir a lei inovadora” . Na reportagem há uma série de depoimentos de “novos ambientalistas” (de tons moderados) e de outros que estão constantemente nos meios de comunicação, mas a jornalista Phidia de Athaide não ouviu, por exemplo, o professor Aziz Ab’Saber, fundador do PT, pesquisador com mais de 50 anos de atividade na Amazônia e tenor dos pesquisadores, educadores/as ambientais e militantes que se posicionaram contrariamente. Novamente não se ouviu/viu manifestações públicas dos/as educadores/as ambientais, próximos ou no interior dos Ministérios do Meio Ambiente e da Educação; que participam de suas publicações; têm contratos eventuais de consultoria; são convidados com direito a voz em eventos; têm projetos financiados e/ou apoiados por esses ministérios e empresas estatais; ou ainda que são membros do PT ou dos partidos aliados do governo.

Os dissidentes (na falta de uma melhor definição) falavam entre si e nos espaços conquistados ao longo de suas trajetórias. As conferências, seminários e eventuais entrevistas tornaram-se oportunidades para a construção e disseminação dessa oposição, no momento em quê uma política pragmática e totalitária se instalava com a complacência de militantes, intelectuais, pesquisadores e professores que se apoderam ou se avizinharam do aparelho de Estado e que de sua órbita enviavam suas mensagens, de que agora, quem estava no poder eram eles e elas.

A expressão de um personagem de Fernando Gabeira “O que é isso companheiros?” que deu título a um dos seus mais conhecidos livros passou a ter um outro significado, recebeu uma irônica revitalidade e teve acrescida a palavra “companheiras”, pois elas se tornaram visíveis e com comportamentos de poder semelhantes aos de seus pares masculinos.

Ao se perguntar “O que é isso companheiros e companheiras?” nesse contexto pode se identificar um tom saudosista de uma época em que ecologistas e ambientalistas educados durante o regime militar, que optaram pela militância política radical, pacífica e argumentativa, acreditaram nas possibilidades revolucionárias da política do cotidiano.

Muitos/as colegas, pouco antes e principalmente durante o governo Lula deixaram de lado as relações que sustentam o ideário político ecologista de solidariedade, amizade, generosidade, colaboração e perspectiva de construção de uma sociedade justa, sustentável e pacifica pelo pragmatismo do poder passageiro e pelos benefícios do capital simbólico oferecido pelo aparelho do Estado, dos patrocínios das empresas estatais, das agências de publicidade e dos cofres públicos. Arrogância e deslealdades se tornaram fatos comuns entre velhos parceiros e parceiras.

As relações promíscuas, no e em volta do poder federal, se manifestaram, por exemplo na difusão de uma versão da história e dos fundamentos da educação ambiental que elimina a diversidade e as contribuições ao movimento e a área, dos militantes, professores e pesquisadores dissidentes. Essas versões tiveram o apoio dos Ministérios do Meio Ambiente e da Educação e de editoras comerciais que acolheram não só o capital simbólico, mas também e principalmente as verbas públicas e patrocínio das empresas estatais, ou privadas como bancos, indústria de refrigerantes, etc.

A versão oficiosa da história e dos fundamentos da educação ambiental, favorável ou impregnada da política do governo Lula, foi construída em algumas das mais importantes universidades e outras mais periféricas, ávidas e necessitadas de visibilidade, que através de alguns de seus professores e professoras recebem verbas para projetos, publicações, consultorias, constituição de redes e cursos de formação de professores ou ainda que tem suas publicações prefaciadas por colegas que ocupam cargos nos ministérios.

As publicações oficiais e as oficiosas como as descritas acima e outras de circulação mais restrita, mas que contam com patrocínio das empresas estatais, tornam público as divisões e rupturas que estavam em curso. Essa documentação exige leitura das entrelinhas, das reticências, de notas de pé de página e constante consulta às referências bibliográficas, exige leitura e interpretação sofisticadas e tecnicamente minuciosas. Esses documentos e bibliografia tornam também públicas as ausências, de qualquer referência aos/as dissidentes, sem que no entanto conceitos, idéias e trajetórias elaboradas e colocadas por eles e elas no debate e no processo de consolidação política e fundamentação teórica da educação ambiental, tivessem sido abolidos.

Em outras palavras: conceitos e propostas elaboradas por autores e autoras dissidentes, em anos de trabalho e nos períodos mais difíceis da constituição e legitimação da educação ambiental no Brasil, foram “incorporados”, “reelaborados” sem que, no mínimo, as devidas referências bibliográficas originais fossem explicitadas. Como definir essa situação: Plágio?Censura? Esquecimento? Deslealdade? Má-fé? Ignorância? Oportunismo? Nenhuma das anteriores? Todas as alternativas estão corretas?

Diante desses fatos e documentação podemos perguntar: Essa situação revela a vertente tropical do método stalinista de se tirar da história todos aqueles e aquelas que se opuseram aos discursos oficiais e/ou suas variantes oficiosas, ou que em momentos outros estiveram juntos mas em posições opostas e diferenciadas?

Vocabulário (s).
O vocabulário comum entre os/as educadores ambientais era até recentemente composto pelas noções de autonomia, cidadania, dialogicidade, diversidade, ética, justiça, liberdade, participação, paz, pluralidade, respeito, sustentabilidade e utopia recebeu outros termos. As conversas cotidianas entre os dissidentes têm sido marcadas pelo vocabulário que contém: acareação, aparelhamento, arapuca, assassinato, blindagem, cooptação, covardia, desfaçatez, deslealdade, despudor, desqualificação, exílio, extorsão, imolação, perplexidade, silêncio, traição, truculência, urdiduras, vilania.
Sobre a cidadania.
Os movimentos sociais brasileiros dos anos 1970 e 1980 enfatizaram e difundiram noções de cidadania que as ciências humanas acompanharam com atenção. Dentre a variada e extensa produção acadêmica do período escolhi retornar a alguns estudos produzidos na geografia, psicologia social e ciências políticas, por possibilitarem observar como que uma parte significativa desse conhecimento não pode ser lida sem o seu compromisso social de construção de uma sociedade democrática logo após a ditadura militar (1964-1984). Nos últimos anos, os discursos sobre as ciências em vários espaços influentes têm privilegiado um descompromisso político,“Ciência militante” se tornou uma denominação pejorativa, relacionada com a intelectuais que produzem discursos engajado, com referências à biologia, neurociências, física quântica, mas sem comprovação empírica, e/ou com fragilidade conceitual.

A educação ambiental padece desses dois problemas. É uma atividade (cientifica) engajada de intervenção social, política, cultural e ecológica e constantemente se apóia em discursos produzidos e difundidos, com as características negativas apontadas acima.

Antes de abordar os textos sobre cidadania dos anos 1980 e 1990 é necessário explicitar que essa produção cientifica foi escolhida com o objetivo de observar a contribuição de áreas das ciências humanas num momento especifico como foi e tem sido o cotidiano político brasileiro desde o fim da ditadura militar e com a qual de uma forma ou de outra a educação ambiental brasileira tem dialogado. A inclusão desses autores e autoras nesse ensaio foi orientada pela observação de que: “(...) as lutas mais especificas em matéria de arte, de literatura, ou de ciência não são totalmente desprovidas de conseqüências no espaço social global” (Bourdieu, 2004a, p.68). Ao recorrer a esses textos faço um percurso e escolhas deliberadas. Assim diria que “ (...)minha intenção é explorar as possibilidades de utilizar o registro político para descrever as ciências, sem me excluir deste registro, quer dizer, tendo consciência de que o “sentimento de verdade” em caso algum é desculpa para não se levar em conta as conseqüências do que nós consideramos verdadeiro” (Stengers, 2002, p. 29).

Por vários motivos, chegar às definições de cidadania de Milton Santos foi resultado de um percurso incontornável. Ele observa que “cidadania, sem dúvida, se aprende. É assim que ela se torna um estado de espírito, enraizado na cultura. É, talvez, nesse sentido, que se costuma dizer que a liberdade não é uma dádiva, mas uma conquista, uma conquista a manter. Ameaçados por um cotidiano implacável, não basta à cidadania ser um estado de espírito ou uma declaração de intenções. Ela tem o seu corpo e os seus limites como uma situação social, jurídica e política. Para ser mantida pelas gerações sucessivas, para ter eficácia e ser fonte de direitos, ela deve se inscrever na própria letra das leis, mediante dispositivos institucionais que assegurem a fruição de prerrogativas pactuadas, e sempre que haja recusa, o direito de reclamar e ser ouvido. A cidadania pode começar por definições abstratas, cabíveis em qualquer tempo e lugar, mas para ser válida deve poder ser reclamada. A metamorfose dessa liberdade teórica em direito possível depende de condições concretas, como a natureza do Estado e do regime, o tipo de sociedade estabelecida e o grau de impugnacidade que vem da consciência possível dentro da sociedade civil em movimento. É por isso que desse ponto de vista a situação dos indivíduos não é imutável, mas está sujeita a retrocessos e avanços.” (Santos, 1987,p.7-8). Mais adiante Milton Santos afirma:“A luta pela cidadania não se esgota na confecção de uma lei ou da Constituição porque a lei é apenas uma concepção, um momento finito de um debate filosófico sempre inacabado. Assim como o individuo deve estar sempre vigiando a si mesmo para não se enredar pela alienação circundante, assim o cidadão, à partir das conquistas obtidas, tem de permanecer alerta para garantir e ampliar sua cidadania” ( Santos, 1987, p.80).

Observar a relação da produção cientifica em educação e em educação ambiental em particular no âmbito teórico e político das análises sobre a cidadania no período da redemocratização do Brasil exigiria um espaço muito maior, mas é necessário lembrar uma vez mais que a ênfase dada à cidadania na educação ambiental é resultado da práxis de vários profissionais e militantes da área.

A discreta presença da educação ambiental na produção teórica sobre a cidadania no período posterior à ditadura militar deve ser analisada levando-se em consideração o movimento histórico de sua origem, presença nas universidades e processo de difusão, legitimidade e institucionalização acadêmica, política e social que ocorrerá principalmente à partir dos anos 90.

Atualmente vários pesquisadores têm se dedicado à problemática da cidadania. A revista Pesquisa da FAPESP de fevereiro de 2006 dá chamada de capa ao tema (“Crise atual afeta cidadania”) para a matéria “Pacato cidadão” assinada por Carlos Haag. O jornalista destaca, entre outras, a pesquisa “Cidadania, participação instituições políticas: o que pensa o brasileiro?” realizada pelo Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas que “mostra como o brasileiro ainda se conforma com a tese de que o Brasil é, e sempre será, um eterno“mar de lama”, contra o qual pouco se pode fazer. Para 79% dos entrevistados, a corrupção é a marca do serviço público (Haag, 2006, p.80). O autor fornece dados de outras estudos e questiona: “Que cidadãos somos nós, tão ágeis em identificar as deficiências institucionais e tão lentos em mudar esse estado de coisas? Somos, efetivamente, pacatos cidadãos ou será que nos fizeram acreditar nisso?” (Haag, 2006, p.82). Na tentativa de obter uma resposta o jornalista se apóia em Wanderley Guilherme dos Santos, Maria Célia Paoli e José Murilo de Carvalho. Para o primeiro: “O Brasil encontra-se muito aquém do limiar da sensibilidade social e assim tem convivido, pacificamente, com a miséria cotidiana, material e cívica, sem gerar grandes ameaças. Aqui, o horizonte do desejo ainda é puro desejo, sem horizonte” (Haag, 2006, p.82). Para Maria Célia Paoli: “Há, ao mesmo tempo, uma recusa histórica do país em configurar um espaço público de enunciação autônoma de direitos ao lado da novidade espantosa de os direitos sociais e sua regulação pública terem se transformado em obstáculos à cidadania, que, dramaticamente transformada, habita agora os espaços do mundo privado e da realização individual sob governos que se apresentam apenas como gestores de crise e mudanças.”(Haag, 2006, p.82).

O argumento de José Murilo de Carvalho é de que: “Com o fim da ditadura militar e da construção da democracia, a partir de 1985, a palavra cidadania caiu na boca do povo. Havia a crença de que a democratização das instituições traria rapidamente a felicidade nacional. Isso funcionou com o voto, mas não em tudo. As grandes desigualdades sociais e econômicas continuam e, em conseqüência, os mecanismos e agentes da democracia, como eleições, partidos. Congresso, políticos, se desgastam e perdem a confiança do público” (Haag, 2006, p.82).

Em seu livro “Horizonte do desejo: instabilidade, fracasso coletivo e inércia social” Wanderley Guilherme dos Santos afirma: “A indiferença com as instituições públicas nada tem a ver, neste caso, com a inclinação ao imobilismo ou ao alheamento político característicos de populações em condições materiais mais confortáveis. Identificar nestas, aparente conformismo e desprezo pela democracia é, no mínimo, temerário. É bem possível que, em sociedades opulentas e relativamente autônomas em relação ao Estado, o alheamento à política refira-se a substância de decisões especificas, mas não ao modus operanti das instituições. Obviamente, não é este o caso de sociedades como a brasileira. Por outro lado, supor que, nestas, escassa participação indique, aí sim, alienação é igualmente precipitado. Por razões distintas, tanto pode ser racional para diversos segmentos sociais, em sociedades afluentes, o recolhimento à vida privada, quanto o será, a mesma atitude, em subsociedades brasileiras, em que os riscos, muito mais que os custos, da participação são consideravelmente superiores as expectativas de possíveis ganhos. Em ambos casos, a pura exigência de participação, as vezes acompanhada de sanções morais, reflete o aspecto autoritário de um rousseaunianismo doutrinário, antes que apropriado entendimento das razões da inércia”( Santos, 2006, p.175). Em outra passagem o autor escreve; “ O horizonte do desejo é algo móvel e que o impulsiona é a relativa segurança de que o fracasso na tentativa de alcançá-lo cobrará custo tolerável, quando a situação em que se recairá é, em si mesma, já confortável. O limiar de sensibilidade social é definido por conseqüinte, como a pior punição possível caso alguém ouse desejar hobbesianamente e fracasse. No caso brasileiro, o custo do fracasso consiste em desemprego prolongado, afastamento do processo produtivo, violência institucional e marginalização. Por isso a privação relativa é tão insignificante- porque relativamente à privação absoluta elas são quase iguais.” (Santos, 2006, p.176).

As conclusões de Wanderley Guilherme dos Santos podem ser comparadas com a produção científica do início dos anos 1990 sobre cidadania e as definições, sentimentos e perspectivas daquele período.

Na Apresentação do livro “A cidadania em construção: uma reflexão transdisciplinar” que reúne textos apresentados no IV Encontro Regional de Psicologia Social da Associação Brasileira de Psicologia Social- ABRAPSO, realizado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo em maio de 1992, Mary Jane Paris Spink observa que “todos os textos visam superar a perspectiva centrada na mera constatação da existência- ou inexistência – dos direitos associados à cidadania plena ou centrados na explicação macroestrutural da falência da democracia baseada nos princípios de igualdade/liberdade/fraternidade, debruçando-se sobre o processo de construção do “ser cidadão”. Embora acatando os fatores estruturais como sobredeterminações, os diversos autores compartilham do pressuposto de que a sociedade é uma construção social e que a subjetividade é um elemento intrínseco desta construção.” (Spink, 1994, p.9). Encontram-se entre os autores e autoras, a organizadora, Bader Burihan Sawaia, Luiza Klein Alonso, Kabengele Munanga, Peter Spink, Salvador A. M. Sandoval e Sueli Rolnik. Com base nos textos de seus colegas Mary Jane Paris Spink observa que: “A cidadania – enquanto fenômeno social concretizado no cotidiano compartilhado – só pode ser entendida na interface individuo-sociedade. Interface esta que tem dimensões amplas e fronteiras nada rígidas e é, consequentemente, domínio de disciplinas múltiplas (...) Prismas múltiplos porque a cidadania que aqui se discute é, também ela, multiplicidade: elementos históricos, determinações estruturais, subjetividade e até mesmo prenuncio de uma ruptura iminente de epistéme que leva a ampliar o conceito para incluir aí não mais apenas os direitos construídos à luz das teorias da igualdade, como também a integração criativa da diferença, da ética e até mesmo, ou sobretudo, da felicidade.”(Spink, pg.9-

10).

A organizadora do livro “Os anos 90: política e sociedade no Brasil”, Evelina Dagnino escreve na Apresentação: “O amplo quadro de questões exploradas neste volume certamente possibilitará leituras particulares, traçadas pelos interesses específicos de cada leitor. No entanto, se comportar uma leitura única, ela certamente será conduzida pelo desafio colocado hoje para a sociedade brasileira pela tarefa da construção efetiva da democracia, incluído aí o encaminhamento da resolução das desigualdades sociais e econômicas. Tratada a partir de uma pluralidade de posições teóricas e políticas, é essa a questão que, para além das propostas temáticas de discussão que organizam o livro, emerge clara e enfaticamente ao longo de suas páginas. Se ao lado da pluralidade, essa for a ênfase que se expressa também na própria sociedade, há que se esperar que o ano 2000, nos encontre diante de outras continuidades e de outras rupturas” (Dagnino, 1994, p.15). O que talvez a pesquisadora não esperasse é que alguns dos autores e autoras do livro como Marilena Chauí, Renato Janine Ribeiro, Maria Herminia Tavares de Almeida e Marco Aurélio Garcia se encontrariam em posição de destaque durante a crise ética e política no governo Lula e do Partido dos Trabalhadores.

O livro “Os anos 90: Política e Sociedade no Brasil” reúne o conjunto de textos apresentados no II Simpósio Anual de Ciência Política, organizado pelo departamento de Ciência Política do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp realizado em novembro de 1993. Nele “... decidimos privilegiar, a partir de uma proposta original do prof. Décio Saes, um conjunto de quatro temas que julgamos eixos articuladores da política brasileira na década de 1990: a remergência do populismo e as tendências a personalização e à espetacularização da política; a corporativização do conflito social; as conseqüências políticas da presença dos movimentos sociais, e finalmente, as direções politico-ideológicas predominantes e sua expressão no quadro partidário. Essa escolha teve também como critério a idéia de examinar os processos de continuidade e de ruptura, a convivência do velho e do novo, numa sociedade que, se certamente passou por transformações muito significativas, enfrenta ainda desafios antigos. Por outro lado, esses temas expressavam também a intenção de conduzir uma discussão da política à partir da dinâmica e das transformações da sociedade civil, mais do que da perspectiva estrita do Estado” (Dagnino, 1994,p.7-8). Entre os autores e autoras, encontram-se os já citados, a organizadora, Ruth Correa Leite Cardoso, Caio Navarro de Toledo, Antonio Flavio Pierucci e Vera da Silva Telles. Para essa última “...é precisamente nisso, no jogo das ambivalências inscritas na vida social, que a questão da cidadania se define como problema – problema teórico, problema histórico, problema político – que escapa às formulas pré-definidas, pois ancorada num terreno sujeito ao imprevisto dos acontecimentos e que é construído na intersecção entre historia, cultura e política, numa combinação nem sempre muito discernível entre tradições persistentes e a novidade dos tempos presentes. Seja como for é um terreno no qual convergem o pesado legado de uma tradição autoritária e excludente e os dilemas postos pela transformação em curso na sociedade e no mundo contemporâneos. (...) Em um contexto no qual as organizações estatais não dão conta das exigências cidadãs e no qual referências identitárias tradicionais são erodidas pela emergência de diferenças sociais, culturais e simbólicas que escapam aos mecanismos tradicionais de representação, a questão que está a desafiar a imaginação política é o difícil problema de tornar comensurável a heterogeneidade inscrita na vida social. (Telles,1994,p.93)
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